A Netflix parece operar em duas marchas bem distintas quando o assunto é o gênero romance hoje em dia: o caos adolescente inocente e a paixão adulta que flerta perigosamente com o Código Penal. Para entender essa esquizofrenia de catálogo, basta olhar para os lançamentos recentes. De um lado, a aposta segura e lucrativa no mundinho de Com Carinho, Kitty (XO, Kitty), o famoso spin-off de Para Todos os Garotos que Já Amei. Focada na caçula das irmãs Covey, a série estreou sua primeira temporada em 2023 com 10 episódios curtinhos, na casa dos 30 minutos, jogando a protagonista (Anna Cathcart) do outro lado do mundo. A garota jurava que tinha um diploma em relacionamentos, mas ao se mudar para a Coreia do Sul para ficar colada no namorado, Dae (Choi Min-yeong), a realidade bate à porta: o amor é uma bagunça bem maior do que ela imaginava. O elenco, que ainda conta com Anthony Keyvan (Q), Gia Kim (Yuri), Sang Heon Lee (Min Ho) e Peter Thurnwald (Alex), garantiu o sucesso rápido da produção.
E a fórmula deu tão certo que a segunda temporada já está no forno para 2025, agora com 8 episódios. A trama vai acompanhar Kitty ganhando uma segunda chance ao voltar para a KISS (Korean Independent School of Seoul) graças a uma intervenção da Yuri. A meta dela agora é passar uma borracha na própria reputação caótica e recomeçar do zero, mas a escola também passou por turbulências. A saída da ex-diretora Lim após um escândalo colocou o professor Lee na cadeira da diretoria, o que inevitavelmente vai jogar novos perrengues no colo dos alunos. É o tipo de história inofensiva, mastigada para o público jovem. Mas a coisa muda de figura quando a gigante do streaming tenta envelhecer o tom do romance.
Aí caímos num buraco onde “fofo” e “psicopata” se confundem. A fronteira entre a comédia romântica e o thriller psicológico anda bem embaçada. Faz tempo que a internet mastiga aquela velha teoria de boteco de que os mocinhos apaixonados do cinema são, na verdade, stalkers assustadores — lembra quando reescreveram o trailer de Sintonia de Amor como um filme de terror 20 anos atrás? A indústria até tenta correr atrás desse debate. Vimos recentemente atos “épicos” de amor serem expostos como pura manipulação na comédia de humor negro I Love You Forever, ou a perversão completa do romance avassalador no sucesso de bilheteria Obsession. É justamente surfando nessa onda que chega Voicemails for Isabelle, a nova tentativa da Netflix de brincar com o gênero. O grande problema é que o filme tem plena consciência do quão desconfortável é a sua premissa. Parece um roteiro escrito nos anos 2000 (na verdade, Hailee Steinfeld estava escalada para o projeto lá pela década de 2010), que foi jogado numa gaveta e agora espanado com uma maquiagem moderninha para os anos 2020.
A história acompanha Jill (Zoey Deutch), uma aspirante a chef confeiteira que, afogada no luto pela irmã falecida, começa a deixar mensagens de voz no antigo celular dela. É o mecanismo de defesa que ela arrumou para sentir que a irmã ainda faz parte da sua vida. O detalhe bizarro é que a linha agora pertence a um cara aleatório, Wes (Nick Robinson). Ao invés de ignorar ou avisar do engano, ele decide ouvir os áudios, rastrear a vida da garota com base nessas intimidades e se enfiar na rotina dela. Ele basicamente ganha o coração da menina enquanto esconde o motivo doentio de como eles cruzaram caminhos. A diretora e roteirista Leah McKendrick passa o filme inteiro dando piscadinhas para o público, como se estivéssemos todos rindo da mesma piada interna. Ela mesma atua no longa só para poder chamar seu próprio protagonista de “esquisitão” e soltar frases dizendo que a situação toda é um “reboot doentio de Mensagem Para Você”.
A questão é que McKendrick quer ter o melhor dos dois mundos. Ela tenta tirar sarro da bizarrice de como os dois se conhecem, mas ao mesmo tempo espera que a gente abrace o casalzinho debaixo de um edredom. A coisa toda é plastificada num nível industrial: tem duas músicas da Taylor Swift na trilha (cortesia da amiga Este Haim, que assina a parte musical, sem dúvida), cenas da protagonista comendo sorvete Breyers com o rótulo milimetricamente virado para a câmera, correria na chuva no clímax e tantas trocas de figurino perfeitamente curadas que já poderiam lançar uma coleção exclusiva na H&M. O roteiro é metralhado com o vocabulário das redes sociais atuais — termos como “gaslighting”, “love bombing” e “apego seguro” brotam nos diálogos do nada. Sendo uma parceria da Sony com o streaming, o visual do filme é de fato mais caprichado e polido que o padrão da plataforma, mas lhe falta o charme essencial. Apontar o comportamento absurdo do Wes não faz a atitude dele magicamente deixar de ser assustadora.
E longe de homenagear Mensagem Para Você, como a diretora tanto almeja, Voicemails for Isabelle acaba lembrando mesmo é daquela atrocidade de 2023 chamada O Amor Mandou Mensagem (Love Again). Aquele filme onde a Priyanka Chopra interpretava uma ilustradora de lagartas em luto (que por algum motivo adorava posicionar pacotes de Skittles tropicais na frente da câmera) mandando SMS para o marido morto, apenas para um estranho igualmente esquisito receber tudo do outro lado. A diferença é que aquele desastre era pelo menos hilário de tão ruim, enquanto esse novo lançamento é morno demais até para salvar a noite depois de umas cinco taças de vinho.
Chega a dar preguiça do tom autoconsciente da obra. O roteiro cospe tantas referências a outras comédias românticas (“Essa é a cena em que você corre”, alerta um personagem perto do fim) só para esfregar na nossa cara que eles conhecem muito bem as regras do jogo. A ironia é a incapacidade total de fazer algo interessante com essas peças. Poxa, se um filme é feito por alguém com tanto afeto e um conhecimento tão profundo dos clichês do gênero, ele não deveria ser infinitamente mais inteligente que isso?
Zoey Deutch costuma ser magnética nesse tipo de papel. Ela segurou muito bem a onda na bobagenzinha natalina do Prime Video Um Presente da Tiffany, entregou uma personagem despudorada em Gail Daughtry and the Celebrity Sex Pass e sempre rende cortes virais excelentes em talk shows. Aqui, porém, ela não consegue encontrar o eixo da personagem, presa numa excentricidade forçada que sufoca qualquer traço de identificação com o público. Sem falar que a gente simplesmente não compra o motivo pelo qual ela se apaixonaria tão intensamente pelo cara. A direção terceiriza o desenvolvimento da química do casal para uma montagem musical bem preguiçosa no início do filme. Já Robinson entrega um papel com zero personalidade, parecendo ter saído de uma linha de produção genérica; uma personagem até solta que ele “não é nenhum Tom Hanks”, firmando talvez a única observação cirúrgica de todo o roteiro.
Com inadmissíveis quase duas horas de duração, o filme ainda tem a audácia de pagar de desconstruído. Tenta minimizar a necessidade da figura masculina (“Eu não preciso de homem!”, grita Jill lá pelas tantas, encarnando uma vibe Pussycat Dolls de 2005) e finge que estamos assistindo a uma mulher alcançando a realização pessoal através da carreira, só para nos empurrar goela abaixo exatamente aquele final batido e não merecido que todo mundo já sabia que ia rolar. Ao tentar preencher a nossa cota por uma história confortável, a Netflix apenas tropeça na própria pretensão.
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